Entrevista com Augusto Burle para Revista Folha 2014

Participei de uma grande exposição de fotografia com mais de cem fotógrafos, na Praça Paris, e tive o prazer de conhecer a Alice, que expunha uma linda foto de ribeirinhos no Rio Xingu. Dias depois fui à sua residência e constatei que ela tem um enorme e importante acervo de fotos dessa região e também de outras partes do planeta. Alice viaja sozinha com o seu precioso equipamento (máquinas, lentes, tripé e computador Apple)

por este mundo afora e tem uma disposição impressionante para tirar fotos em qualquer lugar que ache que valha a pena, sem se importar demasiadamente com os riscos eventuais. Com satisfação, descobri que ela é prima da querida amiga Erica do Prado Valladares, entusiasta da nossa Folha. Erica é viúva de Clarival do Prado Valladares, ambos, grandes amigos de Roberto Burle Marx. Aliás, fico feliz em anunciar aos nossos leitores que Alice irá nos ceder, para edições futuras, outras fotos de alta qualidade do seu rico acervo.

 

folha: A criação do Parque Nacional do Xingu, como alegaram na época, num tamanho maior que o território da Bélgica, foi realmente válida?

 

alice: Sim, porque ali você tem 18 etnias vivendo na sua própria cultura. É o maior mosaico de culturas diferentes do país. No Brasil temos 9 troncos linguísticos, mais de 200 línguas, e os índios ficaram ali protegidos. Só valeu!

 

F: Quantos vivem lá?

 

A: Não sei a quantidade exata, mas acho que mais de 20 mil índios habitam esse território.

 

F: Qual a situação atual e qual o futuro do Parque na sua opinião?

 

A: A situação atual é que os índios estão protegidos dentro do Parque, mas as nascentes dos rios que passam por ele se localizam fora, e os grandes fazendeiros de soja estão neles jogando agrotóxicos em grande quantidade. Belo Monte atinge indiretamente o Parque, porque fica a mais de 1.000 km de distância. Represando as águas, os peixes vão acabar escasseando, mas esse não é o maior problema do Parque.

 

F: Acabo de ver o belo filme Xingu e deu para perceber que os índios estão ficando gordos. Você concorda?

 

A: Eles estão engordando porque o organismo do índio é diferente do do branco. Nós já consumimos o açúcar há mais de 500 anos e o índio, na sua dieta, nunca comeu açúcar branco refinado. O açúcar faz com que o índio fique diabético e em algumas etnias 90% já têm essa doença. Os xavantes tomam insulina direto. Também o álcool no organismo do índio é perigosíssimo porque ele se torna alcoólatra, alucinado. Eles não podem comer açúcar, tomar refrigerantes, se alimentar de carboidratos como arroz e macarrão. Tudo isso, insisto, faz muito mal para o organismo do índio. O Brasil vai ter sérios problemas no futuro, vai gastar muito dinheiro com remédio para os índios se a eles não ensinar que não podem comer como o branco. Belo Monte, por exemplo, manda fardos de açúcar, arroz e biscoitinhos. É claro que o índio prefere consumir isso em vez de ir caçar ou plantar o milho e a mandioca. Mas faz muito mal para o organismo deles. Eu faço um trabalho voluntário com um endocrinologista, Dr. João Paulo Botelho Vieira, com os índios Parakanã e  Araweté, em que o médico faz palestras, proibindo o uso de açúcar e carboidratos. Ele trabalha com os Xikrin e os Xavante. Os Xavante já estão praticamente todos diabéticos e os Xikrin do Cateté, na sua grande maioria, também, ocasionando até amputações. O médico exibe fotos disso para que os índios tenham consciência de que no futuro as tribos devem crescer com saúde.

 

F: Como você chegou aos índios?

 

A: Desde criança eu gosto deles. Sempre me fascinou a cultura indígena. Numa determinada época da minha vida, passei um tempo em Belém do Pará fazendo alguns eventos, já que trabalho com esportes Descobri que eles faziam jogos indígenas no Pará e aí o Secretário de Esportes me convidou para trabalhar como voluntária nos jogos de Altamira. Lá conheci várias etnias, os Asurini, os Arara, os Parakanã, os Araweté e fiquei me comunicando com os professores dessas aldeias. Numa época em que a Funai estava com problemas financeiros e não ajudava, o chefe de posto saiu da aldeia, os índios ficaram desorientados e então a professora começou a me pedir projetos: projeto de pasta e escova de dentes; projeto de chuteiras e bola; projeto de enxadão e machado, e sempre me convidando. Comecei a mandar os projetos mas nunca conseguia ir lá. Até que um dia, com um irmão e um amigo, consegui chegar à aldeia porque a professora estava com malária. Desde esse dia nunca mais saí das aldeias, mantendo uma relação muito forte com os índios. Ajudo nos projetos, na educação, nos esportes, na saúde. Faço muita atividade física com eles, levo muito material esportivo, consigo doações. Agora mesmo estou levando 2 malas de camisetas, medalhas e fraldas para Altamira. Ajudo no que posso, tento ensinar o que aprendi, levo apostilas para os professores sobre jogos, recreação, troco ideias com eles, faço atividades aquáticas com as crianças, mas agora até reduzi, quando fiquei sabendo que os rios tinham muito jacaré e piranha. Faço trabalho social, ajudo o Dr. Botelho na parte de computação. Vou pela Sesai, pelo projeto de saúde. E ajudo também o Dr. Aldo Locurto, médico do grupo Voluntário Nômade Sem Fronteiras, que há mais de 20 anos circula por essas aldeias. Eu o conheci porque ele frequentava a mesma aldeia que eu e no ano passado fui com ele a sete aldeias. Esse local que eu frequento, o médio Xingu, não está dentro do Parque do Xingu. Com a obra de Belo Monte, logo acima de Altamira, perto da usina, as águas do rio nesse local vão subir e não se sabe o que isso vai acarretar. Esse é o problema de Belo Monte, não se sabe com exatidão o que vai acontecer. Com o dinheiro que Belo Monte dá para as etnias e eles fazem o que querem, começaram a dividir as aldeias, porque cada cacique tem uma verba para ele. Então a primeira vez que eu fui nos Araweté eram três aldeias, agora já são sete. Parakanã eram duas, agora são quatro. Asurini, uma, agora são duas. São muitas aldeias espalhadas pelo território deles, que têm muitas dificuldades, sem luz, sem gerador; algumas aldeias não têm barco, nem enfermaria, escola e saneamento. É um desespero: eu já morei ao relento, onde eles tinham acabado de abrir uma aldeia. Eles precisam de alguém para ajudar. Quando começa uma aldeia, ficam muitos pedaços de pau no chão, as crianças se machucam. É um desespero.

 

F: Com que periodicidade você vai ao Xingu?

 

A: A cada três, quatro meses. Este ano passei o carnaval lá, estou pensando ir em junho, se der, e vou novamente em setembro. Entre outubro/novembro e fevereiro/março é época de cheia. É difícil chegar na aldeia. De abril a setembro, tem o problema da vazante. Tem muita pedra nas cachoeiras, é difícil de chegar, mas pelo menos não tem chuva. A chuva é uma loucura.

 

 

F: Quanto tempo você fica lá em cada viagem?

 

A: No máximo dez a quinze dias. Não dá para mais: é muito mosquito, muita malária, muito pium, muito bicho esquisito. A gente volta acabada, começa a ficar fraca.

 

 

F: Como é que você até hoje não pegou malária?

 

A: Ah, eu me cuido: no final da tarde não vou na beira do rio, por causa do mosquito. E eu tomo um remédio que o médico italiano me dá, que afina o sangue. Tomo duas semanas antes de viajar, durante e duas semanas depois. E a gente reza para não pegar, mas não tem como prevenir. A malária está lá e está aumentando. Com Belo Monte, o surto de malária e dengue em Altamira está uma loucura. O rio vai subir, vai virar um lago, a água vai ficar parada e vai haver muito problema com doença tropical.

 

 

 

 

F: O índio deve ser preservado quase intocável, como gostam os antropólogos, ou deve sofrer um processo de aculturamento, como defendia o Mal. Rondon?

 

A: Sim e não. Se o índio continuar vivendo da terra, da natureza, deve manter sua cultura, sua tradição, o meio de vida que ele tem, e de que viveu até hoje. Claro que ele tem que conhecer o branco, saber o que o branco usa e ele não, mas que também pode usar, como uma roupa, um sapato, porque ninguém aguenta ficar sendo picado por mosquitos na floresta e dizer que é índio só porque anda nu. É claro que se ele tiver uma camiseta, uma havaiana, ele vai gostar. Mas a cultura dele deve ser preservada, porque ele é índio, senão ele deixa de ser e passa a ser um branco qualquer. Só que ele tem o espírito de índio, a sua cultura, a sua história, o conhecimento dos ancestrais. Você sabe que o índio conhece até cinco gerações passadas? Eu não sei da história do meu tataravô, mas o índio sabe do dele. Se eu for uma pessoa importante para uma etnia, daqui a 500 anos todos eles vão saber quem foi Alice, porque eles contam a história de pai para filho. Eles sabem tudo que foi importante para a vida deles, de bom ou de ruim. Isso já é diferente do branco. O índio tem consciência de que não pode derrubar a floresta, sabe que não pode ser conivente com madeireiros. Eu já presenciei branco pedindo para o índio cortar madeira e ele se recusar porque sabe que é proibido. É claro que quando eles abrem uma aldeia nova, as árvores gigantes são derrubadas para abrir uma pista de pouso, dá vontade de chorar. É um desespero ver aquelas árvores centenárias sendo queimadas porque nem para fazer banquinho eles aproveitam. Mas acho que, em outros casos, eles só derrubam porque o branco está em cima oferecendo coisas que eles não teriam condições de possuir. Em volta vi madeireiro e fazendeiro invadindo terra indígena para fazer pasto e tirar madeira e ainda prostituir índia. Sei dessa história bem próxima.

 

F: O que você acha da atuação da Funai? Ela é positiva?

 

A: Bom, todas as vezes em que eu entrei em terras indígenas fui convidada pelos índios ou fui para fazer um projeto protocolado por eles e pelos professores na Funai ou, então, fui pela Sesai, que é a antiga Funasa, trabalhando com saúde indígena, que nada tem a ver com a Funai. Nunca, portanto, fui a aldeia sem ter sido comunicada, mas a Funai, em determinadas áreas, não gosta que se frequente as aldeias. Não sei por quê, já que só faço trabalho voluntário. Fiz uma doação de bolas e camisetas e a Funai não quis entregar aos índios, alegando que eu estava fazendo propaganda com as bolas e camisetas. É um

absurdo, né? Em outros locais, em Itaituba, no rio Tapajós, os funcionários da Funai me convidam para trabalhar com eles. Aqui no Rio de Janeiro, em Bracuhy, onde fiz projeto de instrumento musical, a Funai estava presente, colaborou e me recebeu superbem. Acho que a Funai atualmente está sem saber o que fazer, meio perdida, com Belo Monte, com projeto, com índio que não tem mais ninguém tomando conta. É muita terra, muita gente, pouco recurso para cuidar de índio realmente. Cada vez que se vai e volta de uma aldeia são cinco mil reais de gasolina, no mínimo. Cada vez que se remove um índio doente é uma fortuna. Você tem que ter enfermeiros e professores nas aldeias. Para fazer projeto de vacinação, para a Funai fornecer documentos para os índios nas aldeias, é tudo muito caro. Por toda essa dificuldade, acho que deveriam aceitar a colaboração de voluntários, sim.

 

F: Fale um pouco sobres esses índios no Bracuhy, aqui no Rio.

 

A: São índios guaranis e apesar da presença do branco não perderam a cultura deles até hoje, tão fortes eles são. Encontram-se várias aldeias, em Angra dos Reis, Bracuhy, Paraty e Paraty-Mirim. Eles vivem a sua cultura, vendem o seu artesanato, embora possam parecer um bando de mendigos. A cultura guarani é riquíssima e está espalhada por todo o Brasil, até no Norte.

Não tenho certeza do número deles, mas devem ser três ou quatro mil. Existe uma aldeia guarani em Camboinhas (Niterói) e os índios não podem dela se ausentar, já que a especulação imobiliária até já tocou fogo nela. Se os índios saírem, os brancos invadem, incendeiam tudo e até matam porque são loucos por aquela área. É um pedaço de terra valiosíssimo, no final da praia de Camboinhas, e os guaranis moram lá, defendendo a terra deles, a cultura, o artesanato e a música. Temos que respeitar essa cultura. Existe um Brasil que não conhecemos, com outros povos, outras línguas, outras culturas totalmente diferentes. Afinal, eles são os donos da terra. Nós é que somos os invasores: os europeus, os mestiços, os africanos. Eles já estavam aqui antes do descobrimento e precisamos respeitar. Não só respeitar, mas ajudar, ensinar.

 

F: Alice, vendo seu maravilhoso acervo, notei muitas fotos de crianças. As crianças índias são felizes?

 

A: Muito felizes, são donas do planeta.Quando já não está mais sendo amamentada e já

aprendeu a nadar, por volta dos três anos, a criança é totalmente livre. Ela brinca à hora que quer, com o que quer, como quer. Se ela quiser pôr a mão no fogo, vai pôr e se queimar, e então vai aprender que não pode fazer aquilo. O índio respeita a criança, cuida dela de longe e deixa que ela experimente tudo. As crianças são totalmente independentes, elas se viram. Vejo pequenos com seis, sete anos em barquinhos, sozinhos, pescando o almoço. Vejo crianças fazendo a sua papinha no fogo. Elas acompanham muito os pais: as meninas vão lavar roupa no rio e os meninos vão com os pais pescar os peixes maiores. Os indiozinhos aprendem muito por imitação. A criança chora, chora, eles deixam chorar, daqui a pouco ela se levanta e sai andando: não tem essa de manha, de colo. A primeira infância é muito bem cuidada pela mãe, que jamais abandona a criança e está sempre amamentando o filho. Ela não deixa o bebê solto de jeito nenhum. Eu vivo muito em enfermaria, às vezes ficando alojada na própria enfermaria da aldeia. As mães têm muita preocupação com doença, porque resfriado é direto pelo contato com o branco doente. É uma coisa de louco. Já peguei vária crises de coqueluche e resfriado e elas ficam sem saber o que fazer, com a criança no colo, superpreocupadas. Elas realmente cuidam dos seus filhos.

 

F: Vendo uma índia numa de suas fotos, percebi umas manchas estranhas no corpo dela. O que é?

 

A: As manchas eram herpes. É um virus contagioso e aquela índia já perdeu dois filhos por causa dele. Quando passamos pela aldeia dela, o Dr. João Paulo pediu medicamento pelo rádio, porque além de muito contagiosa, essa doença dói muito. É o vírus do sarampo.

 

F: Alice, você é descendente de alemão. Será que numa encarnação muito remota você foi índia?

 

A: Não sei, não sei se fui índia, se fui guerreira, mas o fato é que eu adoro esse povo… Eles têm muito a nos ensinar, temos muita figurinha para trocar ainda. Olha, se ficar sentado escutando o silêncio deles, você já aprende. Eles não falam alto, eles não gritam, eles esperam, eles respeitam, eles observam. São muito interessantes, viu? A gente é que não consegue perceber a essência do ser. Eles são a essência do ser humano. Se você quiser conhecer isso, vá conviver com o índio. Eu me refiro ao índio primitivo, que vive na floresta, com sua cultura. Eu adoro, sempre aprendo muito quando vou lá.

 

F: Obrigado, valeu, Alice.

 

Alice Kohler

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